A superobesidade, caracterizada por um índice de massa corporal (IMC) superior a 50 kg/m², tem crescido entre os candidatos à cirurgia bariátrica, apresentando um grande desafio do ponto de vista técnico, anestésico e metabólico. Pacientes superobesos frequentemente apresentam comorbidades graves como apneia do sono, hipertensão arterial refratária e diabetes descompensada, o que aumenta os riscos e a complexidade das cirurgias bariátricas iniciais. Diante disso, surge o conceito de “ponte terapêutica”, uma estratégia pré-operatória que visa a redução estratégica do peso para minimizar riscos cirúrgicos, facilitar o procedimento e melhorar a segurança anestésica.
O balão intragástrico (BIG) tem sido uma das ferramentas utilizadas como ponte cirúrgica na superobesidade. Seu objetivo não é a perda total de peso, mas sim uma perda parcial, de 10 a 15% do peso, suficiente para reduzir o volume hepático, a gordura visceral e, consequentemente, facilitar a exposição laparoscópica, diminuir o tempo cirúrgico e reduzir a perda sanguínea. Tal abordagem melhora significativamente a segurança anestésica e cirúrgica em pacientes de alto risco.
Experiências brasileiras relatam resultados promissores no uso do balão intragástrico como ponte para cirurgia bariátrica. Em um estudo com 496 pacientes do Instituto de Medicina Sallet superobesos com IMC médio de 52 kg/m², a perda média de peso foi de 25 kg e não houve mortalidade associada ao procedimento. Além disso, 85% dos pacientes apresentaram melhora nas comorbidades e houve uma redução do risco anestésico de ASA III/IV para ASA II. Apenas 15% dos pacientes precisaram realizar a cirurgia em dois tempos, o que demonstra a eficácia da preparação com balão para a cirurgia definitiva.
Os incidentes com o balão foram majoritariamente menores, como náuseas, vômitos e refluxo gastroesofágico, com poucas remoções precoces devido à intolerância. Ademais, os pacientes seguiram para cirurgias bariátricas seguras, incluindo bypass gástrico em Y de Roux, banda gástrica ajustável e gastrectomia vertical.
Com o advento dos medicamentos agonistas do receptor GLP-1, como a semaglutida, surge a discussão sobre o espaço do balão intragástrico nesse contexto. No entanto, ainda há indicações para o uso do balão, especialmente em pacientes com IMC extremo, hepatomegalia importante ou resistência ao tratamento farmacológico. Assim, o balão intragástrico permanece uma ferramenta valiosa, principalmente em centros de referência que oferecem integração entre equipes cirúrgicas, transdisciplinares e endoscópicas.
Em conclusão, a superobesidade representa um desafio crescente na cirurgia bariátrica, e o conceito de ponte terapêutica é fundamental para o preparo pré-operatório desses pacientes. O balão intragástrico, apesar das novas terapias, continua desempenhando um papel essencial na redução estratégica de peso, redução do risco cirúrgico e melhora das condições perioperatórias, mantendo seu espaço como uma opção eficaz e segura para pacientes selecionados.
Este artigo baseia-se nos dados e experiências do Instituto de Medicina SALLET e estudos apresentados no 25º Congresso Brasileiro de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, ressaltando os aspectos técnicos, clínicos e os resultados alcançados com o uso do balão intragástrico na superobesidade como ponte para cirurgia
